quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mas ela continua

Foi na ilha de Creta, a terra do Minotauro, que o homem voou pela primeira vez. Dédalo, o famoso arquiteto que construiu o labirinto, era prisioneiro do rei Minos, e resolveu fugir daquela ilha, ele e seu filho Ícaro. Cercado pelas ondas, vigiado pelo tirânico rei, Dédalo decidiu disputar com os pássaros os transparentes caminhos do céu. Para isso, aplicou-se numa arte até então desconhecida: o filho juntou nos rochedos as penas que as aves marinhas deixavam cair nos seus ninhos e ele, o grande artesão, foi unindo uma a uma, primeiro com fios de linho, depois com a cera da abelha, até completar dois pares de asas, grandes o bastante para sustentá-los. Antes de alçar vôo, no entanto, Dédalo deu a Ícaro o conselho de um homem experiente: "Se desceres demais, a água do mar vai deixar tuas asas pesadas; se subires muito, o calor do sol vai derreter a cera e as penas se soltarão. Mantém-te no meio termo!".

Pai e filho, então, com um pequeno impulso, ergueram-se contra o azul do céu, e neste momento — conta-nos Ovídio —, foram vistos por um pescador, por um pastor e por um camponês, que pensaram que eles eram verdadeiros deuses que voltavam para o Olimpo. Talvez Ícaro tenha pensado o mesmo, deixando-se empolgar pela sensação de leveza; foi subindo cada vez mais, embriagado pelo prazer de voar, até que o previsto ocorreu: a cera se derreteu e as asas se desfizeram, fazendo-o precipitar-se nas águas profundas do mar.

Quem exergou esta cena com olhos bem diferentes foi Bruegel, o Velho, o grande pintor flamengo, que nos deu, em 1558, a sua versão desta queda. Os mesmos personagens de Ovídio estão lá, é verdade, mas é outra a sua atitude. Numa ampla paisagem que se abre sobre o mar, vista do alto de um monte, aparece em primeiro plano o camponês, absorto em manejar seu arado. Em seguida aparece o pastor, apoiado em seu cajado, descansando entre as ovelhas; mais abaixo, junto à água, o pescador observa suas linhas. No fundo, num vasto mar verde-claro, povoado de navios, ilhas e cidades longínquas, vemos apenas as pernas de Ícaro, no momento exato em que seu corpo é tragado pelo oceano. Talvez tenham ouvido seu grito, mas não lhe dão importância. Um jovem — coisa inaudita! — acaba de cair do céu, mas o camponês olha o chão, o pastor vira-lhe as costas e o pescador não parece nem um pouco curioso com as penas que se espalham sobre as ondas. Um sol eterno ilumina o horizonte, e um vento favorável enfuna as velas dos navios, que seguem seu caminho nesta imensidão verde-azulada — a lembrar-nos, neste instante, daquelas duas palavras que resumem a única certeza que podemos ter sobre a vida: ela continua.


(do livro Um Rio que Vem da Grécia. L&PM Editores)