quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Baía de Ítaca

No jardim do Éden


As narrativas de viagem sempre nos fascinaram porque foi assim que começou, para todos nós, esta aventura a que chamamos vida. Nascer foi, afinal, nossa primeira viagem ao exterior, e aqui ficaremos enquanto durar o precioso tempo que o destino nos concedeu. Neste mundo agitado, repleto de luzes e ruídos, todos — uns mais, outros menos — guardam, saudosos, a memória profunda do paraíso acolhedor que nos abrigou ao longo de nove meses. Alguns procuram por ele em terras e mares longínquos; outros juram que ele se encontra muito mais perto do que parece.
Talvez não seja coincidência que as duas histórias mais famosas que o Mundo Antigo produziu neste gênero — a expedição dos Argonautas e o retorno de Ulisses — descrevam os dois trajetos opostos. A primeira narra a viagem mitológica de cinquenta jovens heróis, chefiados por Jasão, que deixam a Grécia no rumo da distante Ásia. Seu navio, o lendário Argo, navega para o norte, passa pelo Helesponto (onde, algum tempo depois, seria travada a guerra de Troia) e, depois de mil peripécias, chega ao Mar Negro, inaugurando assim a rota que ligará o Ocidente ao exótico Oriente. É uma jornada para fora, em busca da terra desconhecida que talvez esconda, em algum vale remoto, o verdadeiro jardim do Éden.
Na segunda — a Odisseia, de Homero —, Ulisses segue exatamente o caminho contrário. Terminada a guerra de Troia, ele ruma, com seus navios, para o sul, na direção da Grécia. Faz dez anos que deixou, a contragosto, o seu pequeno mas amado reino de Ítaca, mas agora conta os dias que faltam para chegar em casa. Os deuses, no entanto, não lhe são favoráveis, e ele leva mais dez anos nesta viagem de volta, repleta de perigos e armadilhas. O que o mantém vivo é a vontade inquebrantável de rever sua casa e sua família — e o gênio de Homero nos permite compartilhar a emoção de Ulisses quando reconhece a luminosidade inconfundível do céu de Ítaca e reencontra seu filho, sua mulher, seu pai, seu cachorro fiel e até as árvores que tinham plantado para ele quando criança. É uma jornada para dentro, a volta de um guerreiro que, depois de vagar por vinte anos em terra estranha, agora sabe muito bem onde mora a felicidade.
         Fico com Ulisses: em minha casa sou feliz. Se não estou nela, estou "fora" — jantei "fora", passei o dia "fora" —, mas, porta a dentro, estou num universo acolhedor, protetor e confortável.  Ela me protege sem me isolar; ela é o meu oásis, e não um lugar de fuga, pois é dela que parto para o mundo, é a ela que retorno para refazer minhas energias. Nela eu me reconheço, porque guarda por toda parte os traços da minha história afetiva; tudo nela me acalma, me tranquiliza — mesa posta, café passado, riso de criança, a voz de minha mulher perguntando se cheguei. Esta é a única utopia possível —  e a coisa mais próxima que verei, estou certo, do paraíso que perdemos.
[Publicado na ZH de 24-08-2010]

Xerxes na América


Talvez por conhecer muito bem a natureza humana, os gregos nunca deixaram de condenar qualquer tipo de excesso; sua literatura e sua mitologia estão repletas de reis e de heróis que foram punidos por ultrapassar os devidos limites no trato com os deuses e com seus semelhantes. Todos esses infelizes cometeram o mesmo crime: embriagados pelo poder, romperam o equilíbrio natural das coisas com sua desmedida (assim os gregos chamavam essa perigosa loucura) e atraíram sobre sua cabeça o castigo inexorável das forças superiores que regem o universo.
Pois uma estranha notícia que nos chega da Venezuela sugere que Hugo Chavez faz pouco caso dos clássicos: neste inverno, numa noite de julho, diante das câmeras da TV estatal, técnicos e funcionários do governo abriram o sarcófago de Simon Bolívar, o libertador das Américas. Falecido em 1830, o herói descansava no Panteão Nacional, em Caracas, onde estaria até agora se Chavez não o tivesse exumado para, segundo ele, determinar seu DNA e investigar a verdadeira causa de sua morte. A cena é macabra e constrangedora: ao som do hino nacional, os peritos tiram a tampa do caixão e vão removendo o invólucro de chumbo; aos poucos, exposto à luz, aparece o esqueleto do libertador, com aquela expressão atônita dos que já conheceram os segredos da morte. No áudio, Chavez diz — entre a metáfora e o delírio — que recebeu, no fundo da alma, a confirmação de que estava mesmo diante de Bolívar: "Sim, sou eu!". Agradecido pela frase ambígua, o presidente, então, promete ao pai da pátria um novo panteão e um ataúde de ouro. "De ouro!", frisa, com o dedo levantado...
Por atravessar esse limite entre os dois mundos, Cambises, rei da Pérsia, enlouqueceu. "Ele abriu tumbas antigas e contemplou os mortos!", diz, com espanto, o historiador Heródoto. Xerxes, também persa, mergulhou no mesmo abismo: ao profanar o túmulo de Belos, encontrou o corpo num caixão de vidro, mergulhado em óleo aromático. Ao lado, uma coluna ostentava um terrível aviso: "Ai daquele que, tendo aberto este túmulo, não encher todo o caixão!". Como faltava mais ou menos um palmo de óleo para atingir a borda, Xerxes, apavorado, mandou que o completassem; no entanto, por mais óleo que vertessem, o nível não se alterou nem um centímetro. Vendo a inutilidade de seus esforços, Xerxes desistiu, mandou fechar o túmulo e se foi, extremamente preocupado. A predição logo se cumpriu: Xerxes marchou contra os gregos à frente de um gigantesco exército, mas foi derrotado sem glória; ao voltar, veio terminar seus dias da forma mais miserável, assassinado, enquanto dormia, pelo próprio filho. Muitos reis aproveitaram a lição e contentaram-se em mandar nos vivos, o que já não era pouco. Os mortos, esses, eles deixaram em paz.