quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A queda de Ícaro - detalhe

Bruegel - A queda de Ícaro

Dédalo no céu

Pedro Gonzaga


para Cláudio Moreno


Imensidão amarga de Dédalo,
esquecido a voar
no céu vedado aos homens
insciente de que ao inventar a fuga
inventava também a queda,
vejo teus olhos cravado num mar
eternamente silencioso
ouço tua obliterada lamúria
por este pedaço
de carne tua
para sempre perdido,
que se deixou encantar
por teu gênio,
como fizera o tiranete
de Minos.
Se para toda pena há prescrição,
por que seguem abertas
tuas asas de cera incorruptíveis?
Em que pensarás, Dédalo,
enquanto se expande sem limites
tua prisão perpétua?
Como é possível conceber labirintos
e evasões
neste universo feito
meramente
de ar, vapor e vento?


[publicado em http://pedrogonzaga.wordpress.com/]


Mas ela continua

Foi na ilha de Creta, a terra do Minotauro, que o homem voou pela primeira vez. Dédalo, o famoso arquiteto que construiu o labirinto, era prisioneiro do rei Minos, e resolveu fugir daquela ilha, ele e seu filho Ícaro. Cercado pelas ondas, vigiado pelo tirânico rei, Dédalo decidiu disputar com os pássaros os transparentes caminhos do céu. Para isso, aplicou-se numa arte até então desconhecida: o filho juntou nos rochedos as penas que as aves marinhas deixavam cair nos seus ninhos e ele, o grande artesão, foi unindo uma a uma, primeiro com fios de linho, depois com a cera da abelha, até completar dois pares de asas, grandes o bastante para sustentá-los. Antes de alçar vôo, no entanto, Dédalo deu a Ícaro o conselho de um homem experiente: "Se desceres demais, a água do mar vai deixar tuas asas pesadas; se subires muito, o calor do sol vai derreter a cera e as penas se soltarão. Mantém-te no meio termo!".

Pai e filho, então, com um pequeno impulso, ergueram-se contra o azul do céu, e neste momento — conta-nos Ovídio —, foram vistos por um pescador, por um pastor e por um camponês, que pensaram que eles eram verdadeiros deuses que voltavam para o Olimpo. Talvez Ícaro tenha pensado o mesmo, deixando-se empolgar pela sensação de leveza; foi subindo cada vez mais, embriagado pelo prazer de voar, até que o previsto ocorreu: a cera se derreteu e as asas se desfizeram, fazendo-o precipitar-se nas águas profundas do mar.

Quem exergou esta cena com olhos bem diferentes foi Bruegel, o Velho, o grande pintor flamengo, que nos deu, em 1558, a sua versão desta queda. Os mesmos personagens de Ovídio estão lá, é verdade, mas é outra a sua atitude. Numa ampla paisagem que se abre sobre o mar, vista do alto de um monte, aparece em primeiro plano o camponês, absorto em manejar seu arado. Em seguida aparece o pastor, apoiado em seu cajado, descansando entre as ovelhas; mais abaixo, junto à água, o pescador observa suas linhas. No fundo, num vasto mar verde-claro, povoado de navios, ilhas e cidades longínquas, vemos apenas as pernas de Ícaro, no momento exato em que seu corpo é tragado pelo oceano. Talvez tenham ouvido seu grito, mas não lhe dão importância. Um jovem — coisa inaudita! — acaba de cair do céu, mas o camponês olha o chão, o pastor vira-lhe as costas e o pescador não parece nem um pouco curioso com as penas que se espalham sobre as ondas. Um sol eterno ilumina o horizonte, e um vento favorável enfuna as velas dos navios, que seguem seu caminho nesta imensidão verde-azulada — a lembrar-nos, neste instante, daquelas duas palavras que resumem a única certeza que podemos ter sobre a vida: ela continua.


(do livro Um Rio que Vem da Grécia. L&PM Editores)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O LADO DE CÁ

Ninguém sabe, com certeza, o que acontece conosco quando a luz finalmente se apaga e fechamos atrás de nós a estreita porta da vida. Essa eterna questão já recebeu dezenas de respostas — nas mitologias, nas religiões, nas crendices populares, nos sistemas filosóficos —, mas estamos tão longe de resolvê-la quanto estava nosso antepassado das cavernas.

Alguns raros escolhidos, contudo, alegam que já deram uma passada pelo outro lado e voltaram para contar tudo o que viram por lá. Plutarco menciona o caso de um tal de Arideus, habitante da Cilícia, famoso por sua falta de escrúpulos. Tendo dissipado toda sua fortuna na juventude, vinha levando uma vida de deboche e vilania, usando de todas as baixezas possíveis para se tornar rico de novo. Ao perguntar ao oráculo se ainda teria alguma chance de melhorar de vida, a resposta enigmática foi que só depois de morto isso poderia ocorrer — e Arideus não esperou muito tempo para entender o sentido dessas palavras, pois caiu do alto de uma ribanceira, bateu a cabeça e morreu.

Três dias depois, no entanto, quando já se cumpriam os ritos para seu sepultamento, voltou à vida, cheio de novidades. Não interessa a descrição daquilo que viu do outro lado, pois segue o padrão de experiências semelhantes, numa linguagem mais adequada para folhetos turísticos que promovam viagens de ida e volta ao Além: luz, muita luz, feixes de galáxias luminosas, miríades de estrelas cintilantes, sinfonia feérica de planetas, mais luz, cores e brilhos indescritíveis, ondas de luz, cataratas de luz, etc. (já que, estranhamente, ninguém volta falando nas labaredas e no forte cheiro de enxofre...). Interessa, isso sim, que Arideus mudou radicalmente depois disso, tornando-se o homem mais virtuoso da Cilícia, bom pai e amigo leal.

Há quem diga que foi a visão daquele mundo luminoso — e o medo de perdê-lo — o principal responsável por esta mudança. Eu, porém, que só conheço este mundo em que me encontro, prefiro acreditar que ele se corrigiu simplesmente porque entendeu o valor de estar vivo. Miguel Esteves Cardoso, autor português de primeira, que também passou por uma dessas experiências de quase-morte, diz isso melhor que ninguém: "Ver o azul do céu, essas merdas. E os dias. Começas a apreciar a vida, a respiração, acordar bem disposto, a água do banho". Antes se comprava tudo; depois do susto da morte, os prazeres são diferentes: "Traz uma humildade absoluta", diz ele, "que é a gratidão, no sentido de olha lá a sorte que eu tive! Saber apreciar isso de estar vivo! Os objetos pequenos, o cheiro das coisas. A riqueza do mundo, sem precisares comprar seja o que for". O estarmos aqui. O estar vivo. Isso basta.

[Publicado em ZH - 25 JAN 2011]