quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Homens e mulheres - 6

13 - Dois extremos de mulher — Dizia um filósofo anônimo que há um tipo de mulher que passa a vida assombrada, vendo seus mais secretos temores se concretizarem em tudo aquilo que ela não compreende muito bem. Se o homem comentar, descansando a xícara no pires, que está pensando em mudar para café descafeinado, ela vai olhá-lo como se o mundo estivesse esboroando e perguntar, já com os olhos toldados por um espelho de lágrimas: "Mas o que foi que eu fiz?". Outras, ao contrário, tudo recebem com um grande sorriso beatífico, aconteça o que acontecer. Se você lhes disser, olho no olho, algo direto e objetivo como "Eu vou te deixar", elas vão responder, com sua suavidade costumeira: "Eu sei, mas eu também te amo". A longo prazo, este tipo é ainda mais enervante que o primeiro.


14 - O harém usa um gabarito — Em sua viagem pelo Oriente, Engelbert Kaempfer, cientista alemão do séc. 17, conheceu um alto funcionário persa que era encarregado de supervisionar a forma física das mulheres do harém. Sua delicada tarefa era, de tempos em tempos, medir as dezenas de esposas do rei com uma espécie de cinto-padrão, em cujas dimensões as graciosas criaturas deveriam se enquadrar. As que ficassem aquém ou além das medidas desejadas eram submetidas a um regime de abstinência ou de engorda até voltar aos limites estabelecidos... Fatema Mernissi, moderna socióloga marroquina — ela própria nascida em um harém — considera ainda mais triste a sorte das mulheres da Europa e das Américas: no Ocidente, diz ela, o homem não precisa trancafiar suas mulheres nem forçá-las a obedecer, porque elas próprias se submetem voluntariamente à imagem tirânica que as atrizes e celebridades — tão vítimas quanto as outras — se encarregam de definir como o ideal do momento.


15 - Feminismo de butique — Wilma Rudolph, a primeira corredora americana a ganhar três medalhas numa única Olimpíada, explica por que não levou a sério o movimento feminista dos anos 70: "Conheci mulheres negras no Tennessee que trabalharam a vida toda, dos doze anos de idade até o dia em que morreram. Elas nunca deram bola para a retórica do Women's Lib porque achavam que era um bando de mulheres brancas que estavam cansadas de seu estilo de vida e simplesmente queriam mudá-lo. Aquelas feministas diziam que era inaceitável que os homens abrissem a porta para elas, ou que lhes acendessem o cigarro. Grande coisa. Neste país, faz alguns séculos que nós abrimos nossas próprias portas e acendemos nossos próprios cigarros. As mulheres negras não perdem seu tempo discutindo essas coisas que não têm a menor importância".

[Publicado em Zero Hora - 08/09/2010

Homens e mulheres - 5

11 - Afrodite, deusa de beleza, era atraente e sensual; Atena, deusa da sabedoria, era séria e compenetrada. Não por acaso, era bem diferente a representação que delas faziam os pintores e escultores do Mundo Antigo. Enquanto Afrodite aparecia mal e mal coberta por véus — quando não totalmente despida —, Atena sempre envergava um longo manto discreto ou vestia armadura completa, com couraça, escudo e capacete.

Este figurino austero condizia com suas atribuições. Por ser lindíssima, deixou mais de um deus enfeitiçado com sua beleza, mas encontrou um modo de afastar definitivamente qualquer possível pretendente: como era a filha favorita de Zeus, pediu ao pai que lhe permitisse ficar virgem e solteira para sempre, a fim de se dedicar ao bem da humanidade. Os gregos a adoravam por tudo o que ela lhes deu: além do primeiro navio, da primeira casa e do primeiro arado, foi ela também que lhes trouxe o dom inestimável da oliveira e do azeite de seus frutos. Apesar de seu aspecto marcial, amava a paz e as artes domésticas, como a cerâmica, a tapeçaria e a tecelagem, e só intervinha nas guerras para assegurar a vitória da justiça. Nunca perdeu uma batalha.

Dizem, contudo, que ela repudiou uma de suas mais valiosas invenções. Certa feita, aplicando o seu engenho à música, sua arte preferida, uniu duas hastes ocas de junco, com orifícios espaçados para os dedos, e formou assim a flauta dupla, de onde extraiu melodias muito mais belas do que as conhecidas até então. Entusiasmada, foi mostrar a riqueza do novo instrumento para os outros deuses do Olimpo; todos ficaram encantados com as novas harmonias, mas Afrodite não conseguia esconder um risinho maldoso cada vez que ela se punha a tocar. Foi o suficiente para que Atena saísse dali desconfiada e fosse procurar uma fonte cristalina que lhe servisse de espelho — e ali, quando viu, horrorizada, que suas feições ficavam deformadas com o esforço de soprar, arrojou para longe a sua flauta, que mais tarde seria resgatada por um sátiro. Houve quem duvidasse da história: uma deusa tão casta, tão avessa ao matrimônio, não ia sacrificar sua invenção por causa da beleza do rosto. Ovídio, porém, poeta romano, ao narrar o episódio — não sei se por ironia —, diz que a própria deusa teria acompanhado o gesto com um sincero desabafo: "Quer saber? A arte não vale tudo isso!".

12 - Para Johann Cohausen, médico alemão do séc. 18 que serviu de modelo para o dr. Frankenstein, famoso personagem do livro do mesmo nome, as mulheres eram mais oleosas do que os homens. Ele se baseava na recomendação de um coveiro que teve de cremar as vítimas de uma grande epidemia: "Se você colocar uma mulher para cada seis homens, eles arderão mais rápido". Comentário de uma velha e sábia condessa: "E seis é pouco! Uma mulher tem combustível suficiente para deixar em brasa quantos homens quiser!".

[Publicado em Zero Hora - 20/04/2010]