quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Xerxes na América


Talvez por conhecer muito bem a natureza humana, os gregos nunca deixaram de condenar qualquer tipo de excesso; sua literatura e sua mitologia estão repletas de reis e de heróis que foram punidos por ultrapassar os devidos limites no trato com os deuses e com seus semelhantes. Todos esses infelizes cometeram o mesmo crime: embriagados pelo poder, romperam o equilíbrio natural das coisas com sua desmedida (assim os gregos chamavam essa perigosa loucura) e atraíram sobre sua cabeça o castigo inexorável das forças superiores que regem o universo.
Pois uma estranha notícia que nos chega da Venezuela sugere que Hugo Chavez faz pouco caso dos clássicos: neste inverno, numa noite de julho, diante das câmeras da TV estatal, técnicos e funcionários do governo abriram o sarcófago de Simon Bolívar, o libertador das Américas. Falecido em 1830, o herói descansava no Panteão Nacional, em Caracas, onde estaria até agora se Chavez não o tivesse exumado para, segundo ele, determinar seu DNA e investigar a verdadeira causa de sua morte. A cena é macabra e constrangedora: ao som do hino nacional, os peritos tiram a tampa do caixão e vão removendo o invólucro de chumbo; aos poucos, exposto à luz, aparece o esqueleto do libertador, com aquela expressão atônita dos que já conheceram os segredos da morte. No áudio, Chavez diz — entre a metáfora e o delírio — que recebeu, no fundo da alma, a confirmação de que estava mesmo diante de Bolívar: "Sim, sou eu!". Agradecido pela frase ambígua, o presidente, então, promete ao pai da pátria um novo panteão e um ataúde de ouro. "De ouro!", frisa, com o dedo levantado...
Por atravessar esse limite entre os dois mundos, Cambises, rei da Pérsia, enlouqueceu. "Ele abriu tumbas antigas e contemplou os mortos!", diz, com espanto, o historiador Heródoto. Xerxes, também persa, mergulhou no mesmo abismo: ao profanar o túmulo de Belos, encontrou o corpo num caixão de vidro, mergulhado em óleo aromático. Ao lado, uma coluna ostentava um terrível aviso: "Ai daquele que, tendo aberto este túmulo, não encher todo o caixão!". Como faltava mais ou menos um palmo de óleo para atingir a borda, Xerxes, apavorado, mandou que o completassem; no entanto, por mais óleo que vertessem, o nível não se alterou nem um centímetro. Vendo a inutilidade de seus esforços, Xerxes desistiu, mandou fechar o túmulo e se foi, extremamente preocupado. A predição logo se cumpriu: Xerxes marchou contra os gregos à frente de um gigantesco exército, mas foi derrotado sem glória; ao voltar, veio terminar seus dias da forma mais miserável, assassinado, enquanto dormia, pelo próprio filho. Muitos reis aproveitaram a lição e contentaram-se em mandar nos vivos, o que já não era pouco. Os mortos, esses, eles deixaram em paz.